quarta-feira, setembro 21, 2011

Por um triz

Esqueço o que magoa
Concentro positividade

Mesmo naqueles dias nublados
Quando a mente insiste, insiste, insiste
Em enveredar-se por vales sombrios
E navegar mares revoltos

Lembro à vida quem dá as ordens
E abraço o caminho de paz

sexta-feira, setembro 02, 2011

Os ratos

Não sei, ao certo, como aquilo começou, mas, certamente, naquela altura, de nossa relação, tinha chegado a um ponto que não dava mais para ignorar, ainda mais depois dos últimos acontecimentos. É claro que no início, bem no início mesmo, não havia nada ou quase nada que chamasse atenção para o fato. Apenas suspeitas. Mas foi aos poucos, mesmo, que começamos a notar. As coisas, sem mais nem menos, desapareciam e reapareciam roídas, ou mesmo rasgadas, dentro e fora da casa. Deve ser um roedor – Comentou minha esposa no jantar. No início, eram pequenos objetos: livros, cheques, e outros papéis. Mas depois de algumas semanas, aquilo foi se estendendo a objetos maiores e logo já eram cadeiras, mesas, quadros, roupas e porta retratos. De imediato, descartamos a possibilidade de roubo ou coisa do tipo. Afinal, que ladrão entraria numa casa só para morder contas de telefone, certidões e cartões de credito? Entretanto, estávamos tensos com todas aquelas invasões. Se é que era invasão. Eu considerava, até, que aquilo fosse alguma coisa de outro mundo. Uma alma penada talvez... Era realmente estranho, afinal eu vivia a vinte cinco anos, com minha esposa, naquela casa e isso nunca havia acontecido em todo esse tempo que estávamos lá. Não tínhamos filhos, bichos, ou mesmo visitas na casa. Vivíamos, apenas, um para o outro, ali, entre aquelas paredes. Mas aquilo, lentamente, estava nos consumindo. Às vezes eu encontrava minha esposa triste, sentada no chão da sala – não havia mais cadeiras ilesas na casa - e saía para fumar um cigarro do lado de fora. Que explicação eu daria se eu não tinha a menor idéia do que estava acontecendo?Eu estava me sentindo tão frustrado que passava mais o tempo no bar, bebendo, do que em casa. Naquela altura a minha barba era uma mancha preta e branca em meu rosto. Minha esposa já não me perguntava mais nada, apenas me olhava com uma profunda tristeza nos olhos. A casa toda era um só silêncio. Vivíamos mergulhados em nossas próprias memórias. Qualquer coisa era motivo para nos refugiarmos no passado, cada vez mais distante. Teve uma manhã, chegando da noite, que eu encontrei uma fotografia antiga de uma viagem que fizemos ao México. Ah, guardei aquela foto, com todo cuidado e zelo, no bolso do meu paletó, mas depois, de alguns dias, eles sumiram como se jamais houvessem existido. Provavelmente já estavam rasgados ou roídos, em algum canto. Não sei dizer, ao certo, quanto tempo durou aqueles dias de angustias. Mas na noite passada,quando estava quase dormindo, ouvi um ruído, que nem um sussurro pela casa adormecida. De alguma maneira, senti que naquele pequeno ruído estaria a chave de todos os nossos tormentos. Olhei para o meu lado, na cama, minha esposa não estava. Isso termina hoje - disse bem baixinho - para mim mesmo. Era um mistura de medo e ansiedade que senti naquele momento. Fui, na penumbra, explorando a parede, fria, com minhas mãos tremulas até chegar à sala. A casa estava mergulhada numa escuridão tão densa que parecia que a noite era feita de alguma coisa sólida. Então, por descuido ou força do hábito, toquei o no interruptor. Logo, tudo ficou claro e eu vi o que jamais imaginara. Horror, horror... Naquela triste sala vi uma infinidade de coisas espalhadas, e bem no canto, a minha esposa mastigando alguns documentos, com entranha e mórbida voracidade. Quando tentei falar algo, para impedir a insanidade daquele ato, percebi, com igual desgosto, que também havia papéis presos entre os meus dentes. Do lado de fora o dia caía como um peso sobre nossas cabeças, então, naquele momento de indecisa profusão, nos abraçamos. Logo, a luz alcançaria os outros cômodos.


Fabiano Silmes