sábado, agosto 20, 2011

O dia da celebração

Quando ele chegava era um acontecimento. A casa toda se movimentava e nós, em nossas roupas novas, nos apressávamos para recebê-lo à janela. Os nossos olhos brilhavam. O Sol parecia mais terno e as manhãs mais douradas. O vento pendia as folhas desavisadas e as levava para longe. Não me lembro se era sábado ou domingo, só me lembro que havia as inúmeras sensações e um eflúvio de perguntas quando ele chegava: Qual surpresa ele trará consigo dessa vez?Será uma bola?Um rádio? Uma namorada? Atentos aos preparativos para recebê-lo, divagávamos ansiosos, pelo momento aguardado. Havia toda inocência e o clamor da pureza de nosso coração ainda intacto. Quando me lembro das noites mal dormidas, das conversas animadas e tudo aquilo que cercava aquela chegada, uma lágrima se precipita do abismo dos meus olhos. Homens, mulheres e crianças em uma só expectativa. Temos que comprar toalhas novas, não é certo recebê-lo, assim, desse jeito. Daqui a pouco ele estará aqui, portas e janelas abertas, risos nos lábios e uma ardente esperança espalhada pela casa. Havia música, me lembrei agora. Uma música suave pelos cômodos da memória. Era um festim de fim de safra. Todos me olhavam no centro da sala. Congratulações eram desejadas, em abraços fraternos. Ansioso, os meus olhos o procuravam dentro daquelas sensações emprestadas, pelos convidados que chegavam. O que ele trará para mim?- Eu pensava, com angústia e desejo. Minha avó, ainda era viva. Meus tios ainda eram vivos. Eu era menos morto do que agora. Havia outros presentes, mas eu ficava, sempre, atento aquele que faltava. Não havia futuro o que havia, em si, era uma concisão de presentes e mais nada quando ele chegava. Será que ele trará uma bicicleta sob o seu manto?Ah como eu era inocente dos fadários! As luzes, de repente, se apagavam, é o grande momento, eu pensava. As vozes, mais eco do que música propriamente, se adiantavam, em cantoria, descompassada. Todos estavam ali ao meu lado. Ele, definitivamente, chegou, eu me perguntava. Mas cadê ele que não o vejo? Eu era uma só dúvida enquanto todos me olhavam. Vais ser doutor, com certeza, meu menino dizia-me papai. Vais ser professor minha mãe retrucava. Naquele tempo não havia futuro só presente. As coisas eram todas revestidas de eternidade. Mas de repente a música e a alegria cessaram e aos poucos foram partindo, um a um, os convidados. Hoje não tenho mais aquela curiosidade e nem espero, com tanta alegria, os anos chegarem à janela. Em verdade, já não existe, euforia, portas e nem janela na casa onde morei. Tudo veio abaixo para construção desses edifícios tristes que me cercam e não me deixam ver mais nada.

2 comentários:

Lu Rosário disse...

O conto, nutrido de alguma poesia, revela uma pessoa que apesar de estar cercado de nuvens cinzentas e muros pichados.. permanece intacto. Essa pessoa não tem mais tantas perspectivas de futuro e suas dúvidas se calam, paulatinamente, em seus pensamentos vários. No entanto, as palavras lhe oportunam romper a rotina e os sentimentos de seu invólucro habitual. Essa pessoa, também, tem medo de por os pés demais no chão e lançar-se em um abismo, cuja queda não se finda. Então, prefere fechar os olhos e se deixar levar sem mais nada esperar.

De suas palavras, não há o que dizer. Elas chegarão onde você quer.

Um beijo.

Poliana disse...

Belíssima crônica Fabiano... É com pesar que crescemos não é mesmo... Essa nostalgia por sinal é algo que vejo com mais sinceridade nos homens do que nas mulheres... Meus amigos homens sempre se queixam de saudades da infância onde tudo é mágico... E eu me pergunto se meu filho sentirá o mesmo...

Bela crônica, está de parabéns. A delicadeza e a sensibilidade sempre em harmonia...

Um abraço,
Poli.