segunda-feira, julho 25, 2011

Uma Crônica para um Renato Crônico

Ele não gostava de barulho, até conversava, mas o que gostava, mesmo, era das idéias vagando dentro da sua própria cabeça. Ninguém percebia isso. Eu mesmo levei muito tempo para perceber... Geralmente a gente se encontrava pelos bares, à noite, sempre em companhia de amigos que tínhamos em comum. Na verdade eu não tinha muita intimidade com ele. Trocávamos idéias rápidas entre um gole e outro de cerveja. Os temas – deixem me lembrar – variavam, ora era uma musica do Buarque, do Veloso, do Gil ora uma indagação politicamente incorreta sobre alguma personalidade local. Ele era bem crítico e criticamente caótico nos apontamentos. Sua voz alta e embriagada atravessava, de um canto a outro, em severas alusões ao um passado sempre presente. As coisas do passado são, quase sempre, mãos delicadas em nosso presente. A cada afago de um momento bom deixa-nos aquele vazio impreenchível das coisas que não voltam. Acho que foi por isso que ele começou a beber mais e mais. A cada copo que ele bebia, dava a impressão que ele estava querendo, de algum modo, preencher esse vazio que, aos poucos, foi devorando, sua lucidez, seus dias de glória, seu convívio e a sua palavra mais forte. Lembro-me de uma vez, bem cedinho, quando saía para o trabalho e o vi bêbado, sem camisa e descalço, sob chuva fina que caia, melancolicamente. Os meus olhos choraram por mim e eu nem me dei conta. Veio o ônibus e eu entrei, quando olhei da janela não o vi mais. Provavelmente nessa época ele já estava tomando os remédios antidepressivos. Se bem que me parece que ele sempre tomou, mas não comentava isso com ninguém. Era o segredo que ele não dividia nem com a própria sombra. No início, o medicamento o deixava sonolento e isso o perturbava, mas, depois ele foi se acostumando e a terra dos sonhos se transformou em seu reinado. Passava às tardes, às noites, os dias dormindo, preso, dentro de casa, e às vezes,quando o tédio ficava insuportável, fugia para rua, para os bares. Desde que eu o conheci ouvia muitas coisas sobre ele, algumas engraçadas até, outras nem tanto. Mas uma coisa que percebi, com o tempo, no seu jeito extravagante e louco de viver é que ele, definitivamente, não gostava de qualquer barulho que interrompesse o fluxo de seus pensamentos. Tanto que, até, o coração dele parou, subitamente de emitir qualquer som, só para ele dormir no mais completo silêncio. Durma Renato, durma em paz.

4 comentários:

Poliana disse...

Maravilhoso!

foi-se disse...

salve esta alma que arrancou-se de seu corpo já podre de nascimento. Ele realmente odiava essa prisão de carne.

to0T4L disse...

e o tempo segue seu fluxo continuo ...

Lu Rosário disse...

..e sua alma, talvez, já não tivesse tanta vida.

Muito bom!