quarta-feira, janeiro 06, 2010

A Última Infância

Para Magno,
Eliseu Furtado,
Leandro Veiga “O Teo”,
E outros sobreviventes.

Antes era simples...bem simples mesmo.Era como soltar pipa no terreno baldio atrás de casa. Ninguém naquele tempo havia exercido ainda a difícil escolha.Na verdade ainda não tínhamos nem consciência de que era preciso fazê-la.No entanto sentíamos, de alguma forma, a necessidade de escolher entre acelerar os passos ou ficar parado pelos cantos. Tudo estava ocorrendo muito rápido... Mudanças na voz, pêlos crescendo em todas as partes e aquele líquido espesso que surgia entre as mãos quando o desejo apertava. Ninguém - e digo ninguém mesmo - havia ainda se dado conta do que estava acontecendo.Como eu disse tudo era simples...simples até de mais. Contudo, apesar de nossa ingenuidade, sentíamos grande expectativa por algo que não sabíamos bem o que era.Porém estávamos certo que isso poderia mudar de vez a nossa vida. Entretanto era quase um martírio... Ficar parado esperando aquilo que era como fogos de artifício dentro da nossa cabeça. Nessa fase já não conversávamos como antes... Comunicávamos apenas com olhares cúmplices no silêncio de nossa espera. Ninguém ousava olhar acima de suas suspeitas e, assim, seguíamos calados, cada um com o seu mundo despedaçado no calor dos acontecimentos.Tudo consista numa secura de gestos duros e inconsequentes...Não havia um fluxo para ordená-los e ainda, para piorar incidia sobre nós a mais completa ignorância. Em casa, para não despertar nenhuma suspeita , agíamos normalmente...afinal pensávamos que ninguém havia notado a nossa presença cada vez mais distante. Mas isso era só o começo... Descobríamos mais tarde, bem mais tarde. Mas foi mesmo naquele espaço entre o ódio por nada e a curiosidade por tudo que resolvemos nos rebelar. A guerra já estava certa e estávamos armados até os dentes para ela. Mas logo vieram as festas, os amores e as desilusões. E isso, por um tempo , passou a ser a parte mais importante do nosso ritual. Depois surgiram os obstáculos e com eles a necessidade de ir cada vez mais fundo buscar um pouco mais daquela reconfortante sensação de liberdade.Alguns mergulharam e não voltaram mais à superfície. Aos poucos a nossa inocência cedia lugar a uma profunda angústia. Naqueles dias o semblante carregado era quase que um assessório indispensável.Na verdade isto ilustrava bem o início do fim. Não do fim, propriamente dito, mas do começo daquilo que sempre foi e que muda o tempo todo. Nessa altura não dava mais para continuar disfarçando...Mesmo que as aparências dissessem o contrário. Alguma coisa veio de sei lá onde e mudou tudo...Até mesmo aquilo que resplandecia diante os nossos olhos já não brilhava mais com antes.O fascínio das pequenas descobertas havia acabado. Pesava, agora, a sociedade e uma série de outras coisas sobre nossos ombros. Entretanto, um dia desses, após anos afastados, nós nos reencontramos.Nesse encontro inusitado - digo inusitado não propriamente devido ao encontro mas ao que ele representava- me deu a impressão que tudo voltara a ser como antes...de alguma forma não estávamos mais carrancudos e preocupados: na verdade estávamos até mais joviais do que antes. Parecia que, de algum modo, as quedas,as perdas e o desespero não haviam acontecido ainda. No começo, até houve certo desconforto, as línguas pareciam mortas dentro das bocas,mas aos poucos fomos puxando assunto.E logo após aquele constrangimento inicial...Estávamos conversando como nos velhos tempos.Então naquele instante - só naquele instante mesmo - percebemos que, de alguma maneira, tínhamos descoberto que o longo caminho que percorremos até às gravatas, às papeladas, os balcões de entrega e todas as obrigações públicas não eram maiores que a distância de um passo e que todas as faces taciturnas, por mais duras que pareçam, desmoronam com um simples abraço...depois cada um foi para o seu lado...Não havia mais o que dizer. Tinha acabado a última infância.

Fabiano Silmes