segunda-feira, setembro 07, 2009

Controle Remoto

Carros passam velozes pelas ruas. Nas calçadas bêbados sorvem as últimas gotas de álcool e adormecem sobre papelões sujos. É sábado à noite... E sinto uma vontade de sair de casa... Ao mesmo tempo sinto uma vontade enorme de permanecer aqui, inerte, diante a essa televisão ligada. Olho toda programação televisiva com angústia e descrédito. Acendo um cigarro no escuro da sala. Na verdade eu convoco o alívio da nicotina para lutar nesta guerra que estou perdendo... Nesta guerra que inventei só para matar o tempo. Deve ser oito horas da noite e eu estou aqui ouvindo a vida me chamar do lado de fora... Alguém bem que poderia ligar pra mim nesse exato instante... Alguém que soubesse o jeito certo de abrir essa porta- quase numa alegria lembro de rostos familiares e de nomes - Ah foram tantos nomes!... Maria, Isabel, Lúcia, Isadora, Patrícia, Ângela, Elisabeth, Marcos, Edu, Paulo, Carlos, Antonio... Mas depois me lembro, amargo, que o telefone daqui de casa foi cortado há muito tempo e que a esta altura do campeonato o meu numero, com certeza, se perdeu dentro de alguma agenda abandonada em algum canto. Eu poderia gritar da janela... É eu poderia gritar a noite toda... Gritar até perder a voz... Gritar até morrer... Mas quem, na cidade, ouviria meu grito com este barulho todo de vida lá fora?Não!Eu não farei nada! Vou engolir qualquer tentativa de me comunicar com o mundo e vou continuar aqui esperando que algo, surpreendentemente, mágico surja na TV e me salve do tédio e quem sabe deste vazio que me toma como refém. No televisor aquela atriz - Qual o nome dela mesmo? – gostossíssima, que pousou nua para uma revista, contracena com um ator pederasta. Ela é realmente um espetáculo... Olhando seus movimentos leves e sensuais na cena... Fico me perguntando se eu já toquei alguma punheta pensando nela. O cara que estiver comendo esse avião, com certeza, deve ser um homem feliz... Feliz como eu não estou agora... Olho para o relógio e já são nove e trinta e cinco... Acendo outro cigarro... E angustiado, pela sede e pela ansiedade, me levanto, quase que instantaneamente, do sofá e vou até a geladeira pegar uma cerveja... Volto a tempo de ver a atriz... Beijar na boca do mocinho da novela. Ator deve ser uma profissão boa a pampa - eu penso com certa inveja. Troco de canal... E um filme antigo me chama atenção... Eu já vi este filme uns dois anos atrás mais ou menos... Ele é cruel e verdadeiro... É um drama daqueles de fazer qualquer um chorar... Tão triste quanto minha vida. Lá fora a noite corre em ritmo alucinado... Aqui dentro nada acontece... Nada exceto este vazio crescendo na velocidade das horas... E meus cigarros que estão acabando. É sábado à noite - na verdade já é quase domingo - E meu corpo implora por um pouco de calor... Minha cabeça gira entorpecida pelo sono e meu coração está vazio como uma casa sem gente... Entretanto disposto a não abandonar, sem luta, o meu ponto de observação, lentamente me acomodo no sofá mesmo... Fecho os olhos e desligo a TV com o controle remoto... Depois - um pouco antes de adormecer - peço quase que balbuciando que amanhã alguém se lembre de mim e me mande, quem sabe, ao menos uma carta só pra saber se eu ainda estou vivo.

Fabiano Silmes