segunda-feira, agosto 17, 2009

O Desespero de Eduard Lonthon


Para Andréa de Azevedo, Emanuel de Jesus e Fabiano Souza.“Se buscas realmente a verdade, deves ao menos uma vez em tua vida duvidar tanto quanto possível, de todas as coisas”. (Descartes, discurso do método.)



O jovem Eduard Lonthon deu entrada no hospital psiquiátrico às dezoito horas e trinta e cinco minutos do dia 11 de setembro, apresentando com patologia nervosa: alucinações típicas da síndrome do pânico, alterações drásticas de comportamento e conduta obscena (esta, por vez, aparentava mais uma provocação gratuita do que um gesto de loucura por assim dizer). Dois enfermeiros, um deles alto com grande protuberância muscular e um outro menos corpulento, o seguravam com extrema dificuldade enquanto ele, descontrolado, vociferava impropérios contra as pessoas que esperavam na recepção do hospital. Algumas senhoras que estavam nas cadeiras próximas da porta de entrada, se afastaram às pressas, temendo a agressividade de Eduard:_ Filhas da puta... vocês são todos filhos da puta, sabiam? Não vêem que ele está me seguindo...não vêem que a qualquer momento ele vai chegar aqui e me escravizar ? É isso que vocês querem? É isso? É?Embora se tratasse de uma instituição psiquiátrica todos ali estavam consternados com aquele episódio e se entreolhavam atônitos._ O que vocês estão vendo é uma mentira...Eu sou tão real quanto um deus inventado... e ele conhece meu poder sobre os demais... por isso ele me quer como um escravo para sua tropa de mentira – continuava Eduard com o seu discurso inflamado – A cada minuto que permaneço retido pela brutalidade destes quatros braços... ele se aproxima de minha escolha e me domina como um estado usurpado.Um homem vestido de roupas clericais se aproximou do jovem e lhe disse quase em súplica:_ Acalme-se meu rapaz ninguém irá te ferir aqui dentro!Por alguns momentos Lonthon ficou a olhar aquele homem de roupas pretas e de rosto ameno e logo disparou cinicamente:_ É e quem protege aqui de si mesmo, hein, meu senhor?_ Como assim? – Perguntou o homem de roupas clericais._ Sim! Isso mesmo!...você não me disse que ninguém irá me ferir aqui dentro? Pois então quem protege aqui senão os que estão aqui mesmo? - perguntou, Eduard, rindo de modo a se ouvir longe. O clérigo por vez disse num tom mais firme:_ Ninguém irá te ferir meu jovem eu te garanto, além do mais este aqui é um hospital militar, portanto ele é vigiado, vinte quatro horas, por soldados que iram garantir a sua segurança. Eduard, um pouco mais contido, olhou o clérigo com quem dá um veredicto e disse entre os dentes:_ Você é um tolo como os outros... ninguém irá me proteger dele... soldados não protegem ninguém... eles apenas lutam e morrem pelas idéias dos generais e estes, por vez, os interesses dos presidentes... dos embaixadores da guerra... e de tudo mais que seja alheio a mim e a você._ Meu filho, mas quem te persegue afinal? Um delinqüente, um desafeto? Alguém que..._ Não você não entende... não entende, ele esta em tudo que vejo e sinto –disse Eduard já em pranto.O clérigo sem saber mais o que dizer... e sem a mínima vontade de continuar aquela conversa que não estava dando em nada concluiu:_ Meu jovem daqui a pouco o médico vai te receitar alguma coisa... e amanhã você vai acordar mais calmo e tudo se resolverá.Nisso Eduard como que possesso por um demônio, de repente retornou a sua fúria inicial:_ Amanhã? Amanhã é o caralho... eu tenho que fugir daqui agora mesmo! Agora mesmo ouviu?O clérigo, ainda tentando acalmar Eduard, disse-lhe:_ O médico já está vindo e ele vai receitar alguma coisa para você dormir...Lonthon, ainda descontrolado, o interrompeu abrupto e ruidoso:_ Porra! Você não entende? Eu não posso dormir, eu não posso descansar... se eu dormir ele vai vir e me fará seu escravo. Você não entende porque é escravo como os outros...Naquele interminável instante, que parecia ter sido retirado das páginas de Kafka, um médico carregando uma injeção se aproximou de Eduard, que se debatia nos braços dos dois enfermeiros, e lhe aplicou alguma espécie de sedativo. Quando Lonthon estava sendo levado, sem demonstrar a resistência de antes, viu seu reflexo em uma pequena superfície espelhada que ficava na parte posterior da sala, e disse entre o sono e o que lhe havia de desperto:_Oh, não! Não pode ser... ele chegou e está ali me encarando... vocês estão vendo? Estão vendo ele ali? Ele está ali... e seus olhos estão em toda parte... não tem como fugir deste olhar maldito... não! Eu não quero... não quero me tornar escravo outra vez... não por favor, não deixem que ele me pegue... não! Não! Não!... Aagh, aagh, aagh. Logo após dizer estas palavras, entorpecidas pelo sedativo, Eduard, languidamente, adormeceu naqueles quatros braços que o carregavam para algum lugar, no tempo e no espaço, atrás da porta branca que se fechava para este mundo.


Fabiano Silmes

6 comentários:

O empírico disse...

O reflexo mostrou o que ele não queria encarar.

F. Reoli disse...

o caralho o conto. No fundo a gente tenta fugir mais sempre quer saber o que tem do outro lado do espelho. Abração!

Lu Rosário disse...

Lembro-me muito bem deste conto..rs

Beijos.

F. Reoli disse...

Fala meus brothers... tem que atualizar essa bodega aqui, gosto pacas do que lei aqui. To ajudando um brother, que escreve legal pacas a divulgar o blog dele. Quando puderem, passem por lá.
Abraços
http://lazeira.blogspot.com/

Desengavetados disse...

Hum...grande novidade ver uma produção em prosa por aqui. Vcs q estão bem acostumados com poesia.
Já disse, Fabí que adoro suas poesias concretas. Mas tb acho q está mostrando uma nova face aqui, produzindo prosa.Invista mais neste processo! Vai com tudo!
Bjos!!!
Andréa.

Polzic disse...

Muy buen blog! Te invito a visitar el mío!

www.legosargentina.blogspot.com

Muchas gracias!