quinta-feira, fevereiro 26, 2009

A despedida

Naquela noite ele havia adormecido no sofá da sala, em quase dois anos morando com a gente, afirmo que ele nunca tinha feito isso, nem mesmo quando chegava de mansinho lá pelas tantas, exausto de suas intermináveis noitadas pela redondeza. Logo cedo, quando amanheceu, minha mãe ao se deparar com ele dormindo ali, embora ficasse um pouco brava com aquela situação, não quis incomodá-lo. Acredito que ela tenha percebido, de imediato, que o estado dele havia se agravado durante a madrugada.A enfermidade, apesar de todos os medicamentos, não dava sinais de trégua, mas ele lutava bravamente...E lutaria até o fim, isto é, até o mais breve dos instantes de mais um dia.Àquela altura ele já estava fraco, minguado, porém, mantinha-se lucido em seu desespero de febre alta. Há quase dois dias que já não comia e nem bebia nada. Levantava-se com extrema dificuldade, fazia grande esforço para se manter de pé, e ao fazê-lo, parecia que todo o peso do universo estava sobre ele. Cada vez mais eu me sentia de mão atadas em meio à tempestade, que de uma hora pra outra, havia se formado sobre a minha família.Meu pai não dizia nada, mas de alguma forma eu sabia que no fundo ele já não nutria nenhuma esperança, embora quisesse demonstrar o contrário. Minha casa estava fria no calor das festividades de dezembro, não havia pelos cômodos qualquer resquício de alegria a nos envolver em balsamo.O que fazer agora? Perguntávamos, atônitos, a nós mesmos.E ele como sempre alheio, a nossa preocupação de pessoas adultas, se resignava em ficar em algum canto da casa nos olhando.Porra eu não vou ficar aqui parado esperando que ele morra bem diante dos nossos olhos - gritei com a convicção de um santo que não acredita em milagres.O meu gesto isolado de todos os acontecimentos era quase uma suplica divina e humana diante da impossibilidade de mudar os fatos que convergem no destino de todos aqueles que gostamos.Desesperado, levei-o em meus braços para o medico (ou quase isso...) Não importa!A vida está além de todas as designações que acaso estejam em um nome ou numa profissão.Era o socorro e isso é que importava àquela altura...Só isso. Enquanto esperávamos sermos atendidos por aquele médico (ou quase isso...) olhamos um para o outro e foi como se tudo, naquele instante, estivesse parado ao nosso redor. Era a nossa despedida, de alguma forma, nós dois sentimos isso.Não havia necessidade de palavras entre a gente, nunca houve, com o tempo tínhamos desenvolvido uma comunicação silenciosa e discreta.Segurei como pude as minhas lágrimas.Não queria deixá-lo ainda mais angustiado com a minha tristeza.Respirei fundo e continuei a olhar bem dentro dos olhos dele.Aos poucos fui sentindo uma radiante calma vinda daqueles verdes e indecifráveis olhos a minha frente.Percebi que não havia nenhuma melancolia neles, apenas uma existência dentro de certas circunstâncias da qual ele ignorava ou fingia ignorar. E assim foi até o fim.Quando ele morreu no final daquele dia, eu fiquei muito triste...O mundo tinha caído com tudo em cima da minha cabeça, depois disso eu jurei pra mim mesmo que nunca mais teria outro bicho de estimação.


Fabiano Silmes

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Palavras em meio aos escombros


Às vitimas das bombas Israelense


Tenho lembranças do futuro
Lembranças do que seria
E do que viria ser se fosse...
Tenho em mim toda expectativa nula
De quem sabe o que vai acontecer
Antes que qualquer fato ocorra.
Tenho em mim a saudade de um
Amanhã presente no passado de todos.
Nem ontem e nem hoje e nem depois...
Abro a porta de minha casa lentamente
E a realidade toda me cerca num abraço
Com suas velhas novidades de sempre
Resisto a tudo e reciclo as urgências
E me torno um estranho em meio ao novo.


Fabiano Silmes