sexta-feira, novembro 07, 2008

Um momento de verdade


Para Tatiana Ronconi



Todos estavam tensos e distantes, apesar dos risos e das máscaras sorridentes cobrindo a inércia dos gestos sem finalidade.Encarávamos com estranheza e horror aquelas paredes brancas com quadros grosseiramente pendurados. Nenhum de nós ousava comentar. Nosso anfitrião sorria sem perceber nenhuma ironia em nosso olhar.Falávamos assuntos banais somente para matar o tempo e a angústia que nos devorava por dentro. Mas como falar sobre o inevitável? Como falar com a faca entre os lábios? Os copos surgiam rapidamente de todos os lados solidários ao nosso desespero cada vez maior. Todas as tentativas de tornar aquele momento suportável haviam fracassado. Uma tristeza enorme, de repente, havia nos alcançado. Era cada vez mais forte o desejo de que a verdade surgisse, pura e limpa, para absolver-nos dos nossos pecados mais sórdidos.Era quase uma urgência vital fingir que isso era possível. Se é que alguma coisa poderia libertar alguém naquelas circunstâncias... Éramos de certa forma cúmplices de uma farsa e, sabíamos todos, que qualquer vacilo ela poderia revelar a dimensão cruel e desumana de nossos atos. Estávamos visivelmente abatidos mas, continuávamos fingindo,até que houve um momento em que já não foi mais possível disfarçar o desanimo, de nosso espírito, em relação aos últimos acontecimentos,então o Dr. Luiz Henrique, ou terá sido o Dr. Queiroz?, anunciou que ia embora. Logo outros, impelidos subitamente pelo mesmo desejo,também foram saindo...A porta continuava aberta. A todo instante alguém inventava algum compromisso de última hora e aos poucos, constatamos, era uma fuga em massa acontecendo.As pessoas se cruzavam perplexas e atônicas.Já não adiantava fingir e nem havia mais como desviar os olhos de todo o acontecimento.Não suportando controlar toda aflição que sentia, Lucélia quebrou o silêncio. Nesse momento eram visíveis as lágrimas descendo pelo seu rosto...Descendo e molhando inutilmente as tentativas de desculpas... Molhando o pouco da dignidade que ainda persistia dentro do apartamento.Não havia como fugir.E Isso estava bem claro para quem quisesse enxergar.O que tentávamos evitar desde o início havia explodido de forma melancólica e descontrolada. Tentei acender,as minhas mãos estavam tremulas e hesitantes, um cigarro já prevendo o cansaço e a vertigem anulando aos poucos a minha resistência. A essa altura o anfitrião, sem máscaras sobre a face desolada, e desvanecido de qualquer força para um combate direto, estava cabisbaixo num canto da sala. Lucélia se esforçava para encontrar palavras que amenizasse a gravidade dos fatos, mas anfitrião parecia convicto de sua posição e apenas a olhava com um triste olhar de mártir.O meu copo de uísque secou num único gole que desceu queimando pela minha garganta.Senti o suor escorrer frio por dentro da minha camisa. Algumas pessoas que haviam permanecido no apartamento fingiam ou tentava fingir que nada estava acontecendo e , entre um copo e outro de uísque, continuavam tagarelando coisas sem importância. Ninguém queria comentar o que acontecia diante deles. Estariam intangíveis assim perceberíamos mais tarde,porém eu estava no olho do furacão e não podia correr para parte alguma. Lucélia, quase aos soluços, tentava explicar todos os motivos a Eduardo...que parecia oco e distante enquanto me olhava com certa dignidade hostil (.) Lucélia, embora estivesse com a maquiagem borrada pelas lágrimas e com os cabelos caídos em desalinho sobre o rosto,estava linda...Tão linda quanto a última vez em que fomos para cama. Os ponteiros do relógio em meu pulso estavam imóveis. O tempo parecia ter parado naquele instante.A porta continuava aberta... Toda certeza era uma convicção morta.Haveria uma segunda chance além daquela porta?Seria um ato desesperado correr em fuga para atravessá-la? Eram tantas coisas que tentávamos esconder, a todo custo, do mundo e até de nós mesmos. Seria mais fácil continuar mentindo? Não tinha mais como disfarçar o que estava claro desde o início.Todos os que estavam ali sabiam perfeitamente disso. Éramos estátuas Persas incrustadas na lama de todos os acontecimentos. Não havia mais nada para ser dito,era óbvio demais, e por algum tempo ficamos calados, um olhando para o outro, medindo os traços e estudando cada gesto que pudesse desencadear uma discussão, uma luta corporal, até mesmo um homicídio.As últimas, cinco ou seis pessoas que haviam ficado conosco na sala, de repente , começaram a bater em retirada. Eduardo,como bom anfitrião, educadamente os acompanhou a até a porta e de lá ficou olhando para dentro...olhando para Lucélia e eu imóvel no centro da sala. Não havia mais o que falar...Foram tantas mentiras...tantas fugas frustradas... Assim permanecemos por um, dois ou três segundos... naquele silêncio que é qualquer coisa de palavra e entendimento.A porta ainda estava aberta. Seria um sinal? Eu não sentia mais medo e nem o desespero de antes, ao contrário sentia-me tomado inteiramente por uma estranha e leve calma, olhei para Lucélia ela também parecia estar mais calma...foram tantas ilusões,tantos desenganos, tantas coisas perdidas... Então,resolutos e confiantes, Lucélia e eu, olhamos juntos para Eduardo. Naquele instante, entre nós três,não havia mais mentiras e estávamos de alguma forma felizes... Felizes com a liberdade daquele momento.


Fabiano Silmes

Um comentário:

Lu Rosário disse...

Muito bom. Fez-me colocar dentro da cena narrada.

Beijão.

Lu Rosário
www.sempudor.blogs.sapo.pt