domingo, março 09, 2008

Azul da cor do mar

O trem quando se atrasava, o que acontecia invariavelmente todos os dias, demorava às vezes duas horas para chegar à estação.Por conta disso, Solange quase sempre chegava atrasada ao trabalho.Ela esperava pelo transporte resistindo bravamente ao frio das quatro e meia da manhã como um soldado resistindo no front ao fogo inimigo.Sua vida nunca foi um mar de rosas.Ela era a mais velha de cinco irmãos e desde dos onze anos de idade já trabalhava duro com os pais na pequena propriedade da família.Quando conseguia tempo para ir a aula (o que raramente acontecia) vestia com todo cuidado, um de seus vestidinhos desbotados, e saía rapidamente pela porta que nem um lince atrás da caça. Por causa de seu jeito tímido e introspectivo era constantemente alvo das brincadeiras cruéis de suas companheiras de classe. Apesar das pilhérias e da indiferença que recaia sobre ela, Solange mantinha-se impassível, e olhava suas colegas como se guardasse um tesouro em uma ilha do outro lado do oceano.Aos vinte e sete anos de idade ela não mudara o seu temperamento e conservava ainda naquele olhar intrinsecamente calmo, o brilho opaco de sua infância.Um traço peculiar de sua personalidade era aquela maneira de agir com se estivesse sempre em outro mundo.Solange era um diamante bruto escondido dentro de uma floresta não explorada.Ela levava uma vida diferente das outras moças de sua idade, não gostava de sair, não ia a festas e, talvez por conta de seu jeito recluso ou mesmo pela ausência de candidatos ao cargo, não tinha namorado.Quando alguma das outras empregadas do edifício aonde ela trabalhava perguntava sobre seus rolos, ela logo dizia: _Meu Jesus Cristinho isso eu não tenho não!Repetia a todas esta frase com a entoação embargada de pavor, como se a idéia pudesse crescer dentro de si e levá-la de fato a consumação carnal. Pensar em algum homem tocando em seu corpo com lascívia fazia Solange lembrar dos sonhos que invadiam seu pensamento e lhe roubava pequenos sussurros nas madrugadas frias e solitárias em que ela acordava toda ensopada de calor e desejo...-É culpa da televisão indagava-se pensativa - por isso Prometera pra si mesma que não veria mais a novela das oito para não ficar lembrando daquelas cenas do Antonio Fagundes, mas as promessas às vezes são frágeis e não duram por muito tempo... Pensava mil coisas enquanto aguardava no frio das primeiras horas da manhã.Quando o trem finalmente chegava na gare, Solange entrava rapidamente e procurava sentar-se a uma janela.Quando dava por si já estava em algum assento, tudo acontecia tão rápido como se os movimentos do seu pequeno corpo fossem ordenados por uma força incontrolável que a obrigava a fazê-los sem que pudesse esboçar qualquer reação. Uma força que nascia de sua necessidade de olhar a vida explodindo numa infinidade de cores fora daquele trem em que ela seguia todos os dias para a rotina de lavar, passar e de manter tudo em ordem no apartamento da Dr Sonia Regina.À medida que olhava as paisagens urbanas através daquele vidro embaçado, seus pensamentos fluíam desatados. Aquele itinerário trazia a lembrança do dia que em que deixou a família no interior do Maranhão para tentar a vida com uma tia que morava aqui no Rio de Janeiro, no pensamento de Solange, esta imagem se misturava com a do dia em que conseguiu empregar-se no mesmo edifício aonde sua tia havia trabalhado por tantos anos.Solange não se dava conta, mas fazia quase seis anos que observava as mesmas paisagens.Sorria consigo mesma quando lembrava da primeira semana aqui no Rio, espantada com o fluxo de pessoas nas calçadas, o transito barulhento e desorganizado da cidade, de alguns turistas falando uma língua que ela não conhecia, a praia de Copacabana e o mar... Aquelas imagens ficaram guardadas em seu subconsciente com raízes tão profundas como aquele mar, “límpido”, belo e azul. Após desembarcar do trem, Solange seguia apresada e tomava um ônibus que passasse na Av Atlântica.Quando chegava ao trabalho, a patroa sempre a recebia com cara de poucos amigos.Apesar da cara de raposa maquiavélica, Dr Sonia Regina gostava daquela moça. Principalmente por que não custava quase nada mantê-la às atividades domésticas do apartamento.Solange fazia seus afazeres com a maestria de um Vila-Lobos.Limpava e passava como ninguém.Não havia nada de mais na sua rotina, exceto aquele trem, aquele itinerário, aquele momento que a libertava de ser apenas uma máquina insensível e alheia ao seu próprio destino.Naquele percurso embora não percebesse, Solange, observava a tudo como se tivesse à capacidade de entender o sentido oculto das coisas que a cercava.Ali podia ser ela mesma e caminhar em meio aquela multidão de pessoas apressadas para o trabalho.Às vezes aquele préstito moviam-se como ondas de mar revolto e por alguns segundos Solange sentia-se arrastada, como um barco sem remos no coração da tempestade. Algumas mulheres que passavam ao seu lado despertavam-lhe uma mistura de inveja e autopiedade. Admirava-lhes as formas exatas, a beleza dos passos leves e sensuais, e de todo aquele requebrado que ela não tinha. Às vezes, quando por acaso encontrava um olhar perdido em sua direção, fechava os olhos e sorria como se fosse bonita. Naquele dia, logo ao chegar ao apartamento, Solange fora informada que a patroa teria, após encerrar os atendimentos do consultório que tinha na Barra da Tijuca, que esperar o marido que chegava de viagem do exterior.Dr Sonia Regina pediu a Solange que ficasse até que ela chegasse do aeroporto.Como sempre Solange não conseguiu dizer não e acatou como se fosse um prazer fazê-lo de bom grado.Para ela aquele dia de trabalho foi como todos os outros; monótono e solitário dentro daquele luxuoso imóvel.O relógio corria na parede da sala, os segundos confrangiam os instantes e o tempo corria de todos o lado.Quando Solange se deu conta, já havia passado três horas além do seu horário de serviço.Seu corpo estava exausto, a cabeça doía, sentia que faltava ar naquele ambiente fechado.Abriu as janelas e quando olhou a praia, notou que a noite havia escurecido as águas e que as luzes dos postes ao longo do calçadão já estavam acesas. Solange absorta em seus afazeres nem percebera que havia passado o dia inteiro dentro daquele apartamento.Quando Dr Sonia Regina chegou acompanhada do marido, Solange rapidamente os ajudou a por as malas no quarto de hospede.Logo após se despedir dos patrões, àquela mesma moça que acordara antes do sol nascer, retornava para casa. A Av Atlântica estava mais cheia do que nunca.Havia uma grande concentração de pessoas pelos bares, pelo calçadão e por toda orla da praia.Embora estivesse morando no Rio há alguns anos, Solange não conseguira se acostumar com o ritmo de vida dos cariocas. Ela olhava toda aquela efervescência noturna displicentemente enquanto aguardava num ponto de ônibus, o transporte para levá-la para casa.Apesar de toda agitação daquela noite, o transito estava sem retenções, tudo estava aparentemente calmo, mas aquele carro desgovernado... era uma exceção.Solange mal teve tempo de vê-lo.Tentou correr, mas as pernas não reagiam ao seu comando, tentou gritar, mas não conseguiu esboçar nem mesmo um murmúrio.Num piscar de olhos tudo ficou escuro. Rapidamente ela fora envolvida por uma sinfonia de vozes desesperadas.Tentou identificar os rostos que surgiam a sua volta, mas tudo estava girando dentro da sua cabeça.A multidão cada vez mais aglomerava ao seu redor.Todas as sortes de reações eram suscitadas naquelas pessoas que a cercavam como moscas varejeiras a um ferimento. Alguns ao verem todo aquele sangue passavam mal, outros viravam o rosto e permaneciam parados em volta; sólidos e invisíveis.Um rapaz correu para um telefone público e ligou para o serviço de emergência. Um senhor de cabelos grisalhos que fora prestar socorro ao motorista, daquele carro arruinado, gritou: chamem uma ambulância o motorista está bêbado e ferido mais está vivo. Uma outra voz indignada berrava a plenos pulmões: Isto aqui é um caso de polícia... É isso mesmo de polícia. Alguém sugeriu que procurassem dentro da bolsa da acidentada, algum numero de telefone para tentar contactar a família daquela jovem e informar sobre o acontecido.Encontraram a sacola caída no meio fio e as coisas que estavam dentro dela espalhadas pela rua, mas nem tudo que havia na bolsa estava jogado no chão, o dinheiro tinha corrido silenciosamente para algum bolso solidário. Quando a ambulância chegou. Solange com um olhar perdido fitava aquele céu escuro. Parecia estar vendo, por entre as lágrimas frias que lhe desciam as faces lívidas, as estrelas brilhando intensamente por cima de toda a luminosidade artificial de Copacabana. E naquele momento final balbuciou para si mesma: _ Vai fazer um dia lindo amanhã... Talvez azul...Azul da cor do mar.


Fabiano Silmes

4 comentários:

Lu Rosário disse...

Uma personalidade feminina e recatada, em um mundo sem moralismos.

Beijos.

www.sempudor.blogs.sapo.pt

cõllybry disse...

Já não vinha há um tempo...Um dia terá certamente o amor...gostei de voltar...

Doce meu beijo

Lua Paixão disse...

Sei que estava com saudades de mim. Estou de volta.

Lua Paixão
www.eroticaamor.blogspot.com

Lua Paixão disse...

Encontro-te em meu blog..sendo meu.

Lua Paixão
www.eroticaamor.blogspot.com