quarta-feira, fevereiro 27, 2008

É carnaval e chove

É carnaval e chove.Observo a chuva com prazer incomensurável.
Devo ser em todo o Rio de Janeiro o único carioca que sente
feliz com esta presença não desejada pelos foliões e pelos amantes
da praia de Copacabana.Perdoa-me rapazes e moças bronzeadas,
que se amam sob o calor tempestivo do Rio.Perdoem-me trabalhadores
que saem de manhã cedinho para cumprir a dura missão de manter
acesas as engrenagens da cidade.Perdoem-me também os vendedores
ambulantes com as suas cervejas nem sempre geladas,mas sempre
indispensáveis no fim de tarde.Perdoem-me todos os pretos,brancos,
índios e mulatos que batucam no mesmo rítmo.Tenham pena deste que
sozinho olha a chuva cair e acha graça.Deste que em verdade tem a chuva
como companhia.Perdoa-me ó multidão de risos úmidos e fantasias
molhadas.Perdoa-me principalmente aquele senhor e aquela senhora que
apesar de tudo,fizeram a fantasia para seu filhinho brincar o carnaval.
Perdoem-me todos...os gregos,os troianos e até mesmo a esta chuva...
_Pois a chuva que quero é aquela que não quer molhar ninguém.


Fabiano Silmes

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

A vitória e a derrota




O imperador ao saber que no seu reino se encontrava um velho sábio que há anos vivia em completo retiro nas montanhas, ordenou aos soldados do palácio que o trouxessem a sua presença para ter com ele.O imperador era tido por todos do império como: um intelectual brilhante, um filósofo excepcional e um poeta habilidoso com as palavras.E muito se falava sobre alguns de seus costumes, dentre eles um que o marcara desde a juventude; o que consistia em fazer perguntas enigmáticas aos sábios, filósofos e poetas do reino, sendo que estes nunca conseguiam satisfazer por completo a profundidade de suas perguntas.Quando o velho sábio foi posto a presença do imperador, este lhe reparou as roupas simples e gastas pelo tempo, as barbas longas e hirtas, e os gestos calmos que resumiam a simplicidade daqueles que vivem uma vida santa.O imperador demonstrando desdém e até mesmo desapontamento perguntou ao sábio:
_Em uma batalha um perde e o outro ganha é a ordem natural de todas as batalhas, porém quem é o vencedor?Quem vence ou quem perde?E se houve derrota poderá o derrotado proclamar-se vencedor?
_Meu senhor depende de como foi ganha a luta: se num combate entre dois oponentes um é aparentemente mais forte e o outro é aparentemente mais fraco, o primeiro sair derrotado prova que ele não era tão forte assim, mas, caso tenha sido o primeiro a vencer o segundo então não houve uma batalha, mas a consolidação de uma covardia...A vitória é relativa quando o combate é encerrado, muitas ocorrem quando não há luta nenhuma. A estes chamamos de combate perfeito.Combater sem pensar no resultado para vencer sem lutar, assim a vitória e a derrota se complementam como a luz e as trevas se delineiam e os dias e as noites se sucedem.Às vezes proclamar quem é o vencedor ou quem é o perdedor em um combate é tão insensato como entre o som e o silêncio apontar qual deles é o mais importante...Isto é tudo que sei senhor...
O Imperador olhou-o e disse:
_Suas palavras fluem com a transparência e a profundidade de um rio...Peço que mate minha sede, ensinando teus preceitos a este seu humilde discípulo que o esperava há tantos anos.E no derradeiro momento em que a noite já se encontrava inclinada silenciosamente sobre todo o reino, a luz do Satori havia sido acessa definitivamente no palácio...

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Bloco de notas

Ao poeta que se revelou antes da morte

A realidade é a navalha que corta minha alma
A dor me criou e agora me transforma
O refúgio não vem de nenhuma direção
Assim me afogo nas lágrimas do adeus
Sussurrando como a leve brisa que sopra na madrugada

Da máquina faço minha testemunha confidencial
Através dos bits ressoarão minhas palavras não ditas
A solidão, minha última companheira
Faz-me ouvir o sermão do vento
Enquanto a noite encobre meu amargo destino

Os princípios se transformam num fim insípido
Eu num rei deposto pelo silêncio do medo
Acorrentado ao trono do desespero e
Envolvido na mortalha das razões
Consumo o único remédio que me alivia

Seu retrato sorrindo para mim.

120to0T4L208




::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

sábado, fevereiro 09, 2008

O sonho e a realidade

In memory a Aline Silva

Sonhar é como abrir as janelas
e ouvir os pássaros todos cantando
melodias nas árvores do quintal.
A realidade,porém é cinza e triste,
como abrir as portas da velha casa
e ver que as árvores não estão mas lá.

Fabiano Silmes