quinta-feira, novembro 20, 2008



Neblina densa, manhã de segunda
Pássaros brancos atravessam a rua
Olhos se perdem na imensidão vazia


to0T@L

sexta-feira, novembro 07, 2008

Um momento de verdade


Para Tatiana Ronconi



Todos estavam tensos e distantes, apesar dos risos e das máscaras sorridentes cobrindo a inércia dos gestos sem finalidade.Encarávamos com estranheza e horror aquelas paredes brancas com quadros grosseiramente pendurados. Nenhum de nós ousava comentar. Nosso anfitrião sorria sem perceber nenhuma ironia em nosso olhar.Falávamos assuntos banais somente para matar o tempo e a angústia que nos devorava por dentro. Mas como falar sobre o inevitável? Como falar com a faca entre os lábios? Os copos surgiam rapidamente de todos os lados solidários ao nosso desespero cada vez maior. Todas as tentativas de tornar aquele momento suportável haviam fracassado. Uma tristeza enorme, de repente, havia nos alcançado. Era cada vez mais forte o desejo de que a verdade surgisse, pura e limpa, para absolver-nos dos nossos pecados mais sórdidos.Era quase uma urgência vital fingir que isso era possível. Se é que alguma coisa poderia libertar alguém naquelas circunstâncias... Éramos de certa forma cúmplices de uma farsa e, sabíamos todos, que qualquer vacilo ela poderia revelar a dimensão cruel e desumana de nossos atos. Estávamos visivelmente abatidos mas, continuávamos fingindo,até que houve um momento em que já não foi mais possível disfarçar o desanimo, de nosso espírito, em relação aos últimos acontecimentos,então o Dr. Luiz Henrique, ou terá sido o Dr. Queiroz?, anunciou que ia embora. Logo outros, impelidos subitamente pelo mesmo desejo,também foram saindo...A porta continuava aberta. A todo instante alguém inventava algum compromisso de última hora e aos poucos, constatamos, era uma fuga em massa acontecendo.As pessoas se cruzavam perplexas e atônicas.Já não adiantava fingir e nem havia mais como desviar os olhos de todo o acontecimento.Não suportando controlar toda aflição que sentia, Lucélia quebrou o silêncio. Nesse momento eram visíveis as lágrimas descendo pelo seu rosto...Descendo e molhando inutilmente as tentativas de desculpas... Molhando o pouco da dignidade que ainda persistia dentro do apartamento.Não havia como fugir.E Isso estava bem claro para quem quisesse enxergar.O que tentávamos evitar desde o início havia explodido de forma melancólica e descontrolada. Tentei acender,as minhas mãos estavam tremulas e hesitantes, um cigarro já prevendo o cansaço e a vertigem anulando aos poucos a minha resistência. A essa altura o anfitrião, sem máscaras sobre a face desolada, e desvanecido de qualquer força para um combate direto, estava cabisbaixo num canto da sala. Lucélia se esforçava para encontrar palavras que amenizasse a gravidade dos fatos, mas anfitrião parecia convicto de sua posição e apenas a olhava com um triste olhar de mártir.O meu copo de uísque secou num único gole que desceu queimando pela minha garganta.Senti o suor escorrer frio por dentro da minha camisa. Algumas pessoas que haviam permanecido no apartamento fingiam ou tentava fingir que nada estava acontecendo e , entre um copo e outro de uísque, continuavam tagarelando coisas sem importância. Ninguém queria comentar o que acontecia diante deles. Estariam intangíveis assim perceberíamos mais tarde,porém eu estava no olho do furacão e não podia correr para parte alguma. Lucélia, quase aos soluços, tentava explicar todos os motivos a Eduardo...que parecia oco e distante enquanto me olhava com certa dignidade hostil (.) Lucélia, embora estivesse com a maquiagem borrada pelas lágrimas e com os cabelos caídos em desalinho sobre o rosto,estava linda...Tão linda quanto a última vez em que fomos para cama. Os ponteiros do relógio em meu pulso estavam imóveis. O tempo parecia ter parado naquele instante.A porta continuava aberta... Toda certeza era uma convicção morta.Haveria uma segunda chance além daquela porta?Seria um ato desesperado correr em fuga para atravessá-la? Eram tantas coisas que tentávamos esconder, a todo custo, do mundo e até de nós mesmos. Seria mais fácil continuar mentindo? Não tinha mais como disfarçar o que estava claro desde o início.Todos os que estavam ali sabiam perfeitamente disso. Éramos estátuas Persas incrustadas na lama de todos os acontecimentos. Não havia mais nada para ser dito,era óbvio demais, e por algum tempo ficamos calados, um olhando para o outro, medindo os traços e estudando cada gesto que pudesse desencadear uma discussão, uma luta corporal, até mesmo um homicídio.As últimas, cinco ou seis pessoas que haviam ficado conosco na sala, de repente , começaram a bater em retirada. Eduardo,como bom anfitrião, educadamente os acompanhou a até a porta e de lá ficou olhando para dentro...olhando para Lucélia e eu imóvel no centro da sala. Não havia mais o que falar...Foram tantas mentiras...tantas fugas frustradas... Assim permanecemos por um, dois ou três segundos... naquele silêncio que é qualquer coisa de palavra e entendimento.A porta ainda estava aberta. Seria um sinal? Eu não sentia mais medo e nem o desespero de antes, ao contrário sentia-me tomado inteiramente por uma estranha e leve calma, olhei para Lucélia ela também parecia estar mais calma...foram tantas ilusões,tantos desenganos, tantas coisas perdidas... Então,resolutos e confiantes, Lucélia e eu, olhamos juntos para Eduardo. Naquele instante, entre nós três,não havia mais mentiras e estávamos de alguma forma felizes... Felizes com a liberdade daquele momento.


Fabiano Silmes

sábado, outubro 18, 2008

Um tempo atrás


... há para frente um tempo ...
... para frente um tempo ...
... frente um tempo ...
... um tempo ...
... tempo ...
... po ...
...
..
.

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sábado, setembro 13, 2008

Momento narrado pt. 31

A luz acesa -
- Toca o par de
Sandálias pretas, desdobro o
Cobertor dobrado
Em cima da cama
Agora em uso
Vinho tinto
Do lado inferior
Direito, seco,
Num copo gordo
Envolto no frio
Que ocupa uma quarta
De tarde baixa
Sempre ela
Sempre
A tarde
Entre jogos de guerra
Lembrados de última
Hora
Travados no papel
E eu acabo de caneta
Na mão, olhando o par
De sandálias pretas
Iluminadas inertes no chão.


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quarta-feira, agosto 27, 2008

O que sou por escrito


Em mim há tudo aquilo que me falta.
Sou sempre alheio ao que me torno.
Quando penso estou pleno e disperso.
Sou o que me resta ser em mim e mais.
Como um rio eu corro para o mar além
E sou toda força que me abandona.
O meu peito é uma casa sem portas
E meu riso é sempre jovem e eterno.
Tenho toda a liberdade no que eu sinto
Quando o horizonte guia os meus passos.
Meu pensamento é um reino consentido
E a minha vida inteira é um livro aberto.
Quando ando levo em mim toda a esperança.
Quando permaneço sou todo um porto fechado.
A tristeza não sou eu que acendo e nem apago
Mas minha felicidade sou eu que determino.
O meu coração não tem pátria e nem bandeiras.
Sou eu mesmo e sempre serei em mim apenas
A mesma maneira de forma diferente e igual.
O mais deixo escrito no vento e o resto nos versos.

Fabiano Silmes

domingo, agosto 10, 2008

Dois corpos no mesmo espaço

Ele a olhou de cima a baixo e ela sorriu fingindo estarenvergonhada. Ela devia ter entre 18 a 23 anos de idade e ele já estava na casa dos quarenta.Ambos estavam à vontade e sabiam bem o que queria um do outro.Ele pediu que o garçom trousse outra cerveja e aproveitou para acender um cigarro.Ela acariciou a mão dele e disse que também estava com vontade de fumar.Ele, que já havia guardado, novamente retirou o maço do bolso do paletó e estendeu em direção a jovem.Ela pegou um cigarro, o acendeu e agradeceu em seguida. Era uma quarta-feira chuvosa e não havia quase ninguém no estabelecimento.Ela percebeu que a conversa entre eles dois estava esmorecendo e subitamente começou a falar com uma entoação mais maliciosa e provocante.Ele, lacônico, observava aqueles lábios voluptuosos abrindo e se fechando delicadamente a cada palavra. Não suportando mais aquele jogo do qual sabia que não teria nenhuma chance, ele se dirigiu a ela quase balbuciando, após a moça consentir com a cabeça, ambos levantaram e seguiram lânguidos pelo corredor que dava para as escadas.O coração dele parecia que ia saltar pela boca, no entanto, o dela mantinha-se frio e anestesiado.Já no interior do quarto foi ela que tomou a iniciativa e o beijou na boca.Ele a envolveu em seus braços e ela deixou-se conduzir até a cama. Rapidamente ele se despiu e avançou voraz sobre aquele corpo estendido a sua frente. Na cama, despidos de qualquer pudor, os dois se entregaram completamente à excitação e ao desejo que os envolviam. Depois de saciados os últimos vestígios do furor sexual, ambos permaneceram abraçados sob aquela luz avermelhada. Ela, ligeiramente melancólica, olhou para o relógio e viu que faltava ainda quatro minutos para eles dois saírem do quarto.Ele sorriu e ela o acompanhou em sua alegria, mas no seu íntimo, sentia-se cansada, sabia que a noite mal havia começado para ela. Quando a campainha soou ambos já estavam vestidos.Ele pegou duas cédulas de sua carteira e entregou a ela, que o agradeceu, dando-lhe um último beijo, antes de fechar a porta atrás de si como se encerrasse ali dentro um momento que nunca existiu. (06/07/08)Fabiano Silmes

segunda-feira, julho 21, 2008

Júpiter >< Saturno



A fuga
De mim mesmo
Está cada dia mais difícil
Quase impossível
Deliciar-me com as velhas quimeras
Miragens vão secando
A beira do apartheid
Entre sonho e realidade
Aceno, perdido,
Para a cidade proibida
E seus tesouros em neon
Mas não há resposta
As fantasias parecem mortas
E os homens culpados
Sinto-me enclausurado
Tudo é apenas aposta e retórica

Mergulho de cabeça no absurdo
Para além deste crânio apertado
Ganhar novamente o mundo
Que na palma de minhas mãos
Um dia julguei fora de perigo
Mas o tempo tudo corrói
Não livra mundo nem mãos
Mas mesmo o tempo tem seu vazio
Uma brecha invisível
Que mantém acesa a chama
De um vórtice que pertime perceber
Que Eu não sou apenas eu
Sou aquele que invento
Para matar o tempo
O qual delira a contento
Para viver eternamente
Vestido com a égide da poesia

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sexta-feira, julho 11, 2008

Por um fio

dois pássaros distrídos
no fio de alta tensão
a morte passando por eles.

Fabiano Silmes

quarta-feira, julho 02, 2008

Horas mortas

o relógio sobre a lareira
o tempo esfria as chamas
as horas correm no vento.


Fabiano Silmes

domingo, junho 01, 2008

Fluxo & Movimentos


O vento
Inventa
No
tempo
Os movimentos
O pensamento
No invento
O tempo é o invento
E o pensamento
Um
Cata-vento.


Fabiano Silmes

sexta-feira, maio 30, 2008

O Sonho


Ontem eu sonhei que era feliz
Como nunca fora antes na vida.
Todos que jazem no derradeiro sono
Estavam inalteravelmente despertos...
(Em meu sonho não existia dor.)
Tudo era calmo como um abraço.

Não havia a indiferença dos gestos,
Nem a incomunicabilidade dos fatos.
Tudo era pleno como um dia de Sol.
Não havia lágrimas em meu rosto
E meu sorriso era vivo e eterno.

A palavras saudade estava apagada.
Tudo era tão veradadeiro por dentro
Como nunca antes em minha vida.
Ontem eu sonhei que era feliz...
Hoje eu não sonho mais...

sábado, maio 24, 2008

Durante um tempo foi assim ...

.
..................................I
O despertar


Começou pra ser assim
Perdeu-se por ficar assado
Abandonado sem perceber
Como inocência no passado


Colocou a mão no bolso
Foi quando deu por falta
Achou apenas um cartão vermelho
Na forma de um coração que chora


Mas ergueu a cabeça e viu
Que tudo que havia perdido
Flutuava ao seu redor
Ao alcance das mãos
E a um passo do pensamento


..................................II
O ápice


Correu aos pulos pelos verdes campos da consciência
Caçando as várias belas borboletas
Que por muito tempo insistira em não ver
E agora faiscavam sedutoras a sua frente


Pegava quantas conseguisse de uma vez
E jogava para dentro de si
Mas eram como estrelas no céu...
Mas também era grande sua fome...


Passou não medir esforços
Passou viver para caçar
Borboletas durante o dia
Estrelas durante o luar


..................................III
A lição


Certo dia tossiu uma borboleta
Transbordava de tantas
Passou mostrá-las para outros
Que assim como o seu passado ignoravam-nas:


Com a atenção voltada para moscas
Mantinham-se com a visão desfocada
Por parasitas sempre fáceis e disponíveis
Como daninhas brotando em todo lugar


Basta abrir a boca para que venham pousar
Basta mastigar para alimentar-se delas
Basta flertar com o fim
Para cercar-se delas


..................................IV
O registro


Moscas e borboletas propagam-se pelo ar
Ocupam o mesmo lugar no espaço
Nascem na mesma terra
Morrem no mesmo compasso


Permeiam tudo e nada
Transformam-se a cada segundo
Penetrando nas veias ao respirar
Fazendo do viver uma escolha


Vontade então intacta
Na luta de manter a chama acessa
Para não deitar com as moscas, sem antes caçar
As mais belas borboletas que
Fazem a vida se revelar.


Terra dos Cyborgs, não datado.
Charles Garreau




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sábado, maio 17, 2008

Lágrimas de vidro


na agonia de minha vida
eu não quero mais chorar
e sentir as minhas lágrimas

-molharem o meu sorriso-

enquanto olho a eternidade
das coisas que passam (só)
em meu pensamento.

terça-feira, maio 06, 2008

A dor e o Corte

A Rodrigo Santos

Imagens fugidias de tempos vagos.
Brisa leve sobre a face entorpecida.
Do furor eterno recolhido em mim
Amanhece e estremece a dor infinda.

De peito nu e aberto recebo o delírio
A percorrer por todas as minhas veias
Como um deus lasciso e tempestuoso.
Fere-me a lembraça viva e corrosiva

Do vermelho das chagas abertas em flor
Pelos corpos pálidos das tardes violadas.
Oh!Prestito de sombras desencontradas...

Mas não lamenteis pelo meu infortúnio
Pois a lâmina fria que aos meus pulsos fere
Vem furtiva e exata de minhas próprias mãos.

Fabiano Silmes

segunda-feira, abril 21, 2008

A cigarra


o canto da cigarra não revela tristeza
vive e morre a cigarra em seu canto
tão alheia ao destino como os homens.
Fabiano Silmes

sexta-feira, abril 11, 2008

As flores

Os homens nascem
As flores crescem
Os Homens se sucedem
As flores envelhecem

Com a bênção do padre
Homens e flores se unem
Em eterno matrimônio
Benditas são as flores
Companhia final dos homens.

Fabiano Silmes

segunda-feira, abril 07, 2008

sábado, março 29, 2008

She

quando ela passa eu fico
quando ela fica eu saio
quando peço ela disfarça
quando ela quer me beija
quando me calo ela imita
quando eu a olho ela não é
quando ela olha eu não estou
quando juntos estamos tristes
quando distantes estamos mais
quando não temos nada a dizer
saio de mim e vou embora

quando ela me chama eu vou atrás...



Fabiano Silmes

sexta-feira, março 21, 2008

O Sol


o sol cingiu o verde do campo
o sol apagou o escuro de tudo
o sol secou todas as fontes
o sol matou o homem de sede
e deu lindas flores para seu funeral.
Fabiano Silmes

domingo, março 09, 2008

Azul da cor do mar

O trem quando se atrasava, o que acontecia invariavelmente todos os dias, demorava às vezes duas horas para chegar à estação.Por conta disso, Solange quase sempre chegava atrasada ao trabalho.Ela esperava pelo transporte resistindo bravamente ao frio das quatro e meia da manhã como um soldado resistindo no front ao fogo inimigo.Sua vida nunca foi um mar de rosas.Ela era a mais velha de cinco irmãos e desde dos onze anos de idade já trabalhava duro com os pais na pequena propriedade da família.Quando conseguia tempo para ir a aula (o que raramente acontecia) vestia com todo cuidado, um de seus vestidinhos desbotados, e saía rapidamente pela porta que nem um lince atrás da caça. Por causa de seu jeito tímido e introspectivo era constantemente alvo das brincadeiras cruéis de suas companheiras de classe. Apesar das pilhérias e da indiferença que recaia sobre ela, Solange mantinha-se impassível, e olhava suas colegas como se guardasse um tesouro em uma ilha do outro lado do oceano.Aos vinte e sete anos de idade ela não mudara o seu temperamento e conservava ainda naquele olhar intrinsecamente calmo, o brilho opaco de sua infância.Um traço peculiar de sua personalidade era aquela maneira de agir com se estivesse sempre em outro mundo.Solange era um diamante bruto escondido dentro de uma floresta não explorada.Ela levava uma vida diferente das outras moças de sua idade, não gostava de sair, não ia a festas e, talvez por conta de seu jeito recluso ou mesmo pela ausência de candidatos ao cargo, não tinha namorado.Quando alguma das outras empregadas do edifício aonde ela trabalhava perguntava sobre seus rolos, ela logo dizia: _Meu Jesus Cristinho isso eu não tenho não!Repetia a todas esta frase com a entoação embargada de pavor, como se a idéia pudesse crescer dentro de si e levá-la de fato a consumação carnal. Pensar em algum homem tocando em seu corpo com lascívia fazia Solange lembrar dos sonhos que invadiam seu pensamento e lhe roubava pequenos sussurros nas madrugadas frias e solitárias em que ela acordava toda ensopada de calor e desejo...-É culpa da televisão indagava-se pensativa - por isso Prometera pra si mesma que não veria mais a novela das oito para não ficar lembrando daquelas cenas do Antonio Fagundes, mas as promessas às vezes são frágeis e não duram por muito tempo... Pensava mil coisas enquanto aguardava no frio das primeiras horas da manhã.Quando o trem finalmente chegava na gare, Solange entrava rapidamente e procurava sentar-se a uma janela.Quando dava por si já estava em algum assento, tudo acontecia tão rápido como se os movimentos do seu pequeno corpo fossem ordenados por uma força incontrolável que a obrigava a fazê-los sem que pudesse esboçar qualquer reação. Uma força que nascia de sua necessidade de olhar a vida explodindo numa infinidade de cores fora daquele trem em que ela seguia todos os dias para a rotina de lavar, passar e de manter tudo em ordem no apartamento da Dr Sonia Regina.À medida que olhava as paisagens urbanas através daquele vidro embaçado, seus pensamentos fluíam desatados. Aquele itinerário trazia a lembrança do dia que em que deixou a família no interior do Maranhão para tentar a vida com uma tia que morava aqui no Rio de Janeiro, no pensamento de Solange, esta imagem se misturava com a do dia em que conseguiu empregar-se no mesmo edifício aonde sua tia havia trabalhado por tantos anos.Solange não se dava conta, mas fazia quase seis anos que observava as mesmas paisagens.Sorria consigo mesma quando lembrava da primeira semana aqui no Rio, espantada com o fluxo de pessoas nas calçadas, o transito barulhento e desorganizado da cidade, de alguns turistas falando uma língua que ela não conhecia, a praia de Copacabana e o mar... Aquelas imagens ficaram guardadas em seu subconsciente com raízes tão profundas como aquele mar, “límpido”, belo e azul. Após desembarcar do trem, Solange seguia apresada e tomava um ônibus que passasse na Av Atlântica.Quando chegava ao trabalho, a patroa sempre a recebia com cara de poucos amigos.Apesar da cara de raposa maquiavélica, Dr Sonia Regina gostava daquela moça. Principalmente por que não custava quase nada mantê-la às atividades domésticas do apartamento.Solange fazia seus afazeres com a maestria de um Vila-Lobos.Limpava e passava como ninguém.Não havia nada de mais na sua rotina, exceto aquele trem, aquele itinerário, aquele momento que a libertava de ser apenas uma máquina insensível e alheia ao seu próprio destino.Naquele percurso embora não percebesse, Solange, observava a tudo como se tivesse à capacidade de entender o sentido oculto das coisas que a cercava.Ali podia ser ela mesma e caminhar em meio aquela multidão de pessoas apressadas para o trabalho.Às vezes aquele préstito moviam-se como ondas de mar revolto e por alguns segundos Solange sentia-se arrastada, como um barco sem remos no coração da tempestade. Algumas mulheres que passavam ao seu lado despertavam-lhe uma mistura de inveja e autopiedade. Admirava-lhes as formas exatas, a beleza dos passos leves e sensuais, e de todo aquele requebrado que ela não tinha. Às vezes, quando por acaso encontrava um olhar perdido em sua direção, fechava os olhos e sorria como se fosse bonita. Naquele dia, logo ao chegar ao apartamento, Solange fora informada que a patroa teria, após encerrar os atendimentos do consultório que tinha na Barra da Tijuca, que esperar o marido que chegava de viagem do exterior.Dr Sonia Regina pediu a Solange que ficasse até que ela chegasse do aeroporto.Como sempre Solange não conseguiu dizer não e acatou como se fosse um prazer fazê-lo de bom grado.Para ela aquele dia de trabalho foi como todos os outros; monótono e solitário dentro daquele luxuoso imóvel.O relógio corria na parede da sala, os segundos confrangiam os instantes e o tempo corria de todos o lado.Quando Solange se deu conta, já havia passado três horas além do seu horário de serviço.Seu corpo estava exausto, a cabeça doía, sentia que faltava ar naquele ambiente fechado.Abriu as janelas e quando olhou a praia, notou que a noite havia escurecido as águas e que as luzes dos postes ao longo do calçadão já estavam acesas. Solange absorta em seus afazeres nem percebera que havia passado o dia inteiro dentro daquele apartamento.Quando Dr Sonia Regina chegou acompanhada do marido, Solange rapidamente os ajudou a por as malas no quarto de hospede.Logo após se despedir dos patrões, àquela mesma moça que acordara antes do sol nascer, retornava para casa. A Av Atlântica estava mais cheia do que nunca.Havia uma grande concentração de pessoas pelos bares, pelo calçadão e por toda orla da praia.Embora estivesse morando no Rio há alguns anos, Solange não conseguira se acostumar com o ritmo de vida dos cariocas. Ela olhava toda aquela efervescência noturna displicentemente enquanto aguardava num ponto de ônibus, o transporte para levá-la para casa.Apesar de toda agitação daquela noite, o transito estava sem retenções, tudo estava aparentemente calmo, mas aquele carro desgovernado... era uma exceção.Solange mal teve tempo de vê-lo.Tentou correr, mas as pernas não reagiam ao seu comando, tentou gritar, mas não conseguiu esboçar nem mesmo um murmúrio.Num piscar de olhos tudo ficou escuro. Rapidamente ela fora envolvida por uma sinfonia de vozes desesperadas.Tentou identificar os rostos que surgiam a sua volta, mas tudo estava girando dentro da sua cabeça.A multidão cada vez mais aglomerava ao seu redor.Todas as sortes de reações eram suscitadas naquelas pessoas que a cercavam como moscas varejeiras a um ferimento. Alguns ao verem todo aquele sangue passavam mal, outros viravam o rosto e permaneciam parados em volta; sólidos e invisíveis.Um rapaz correu para um telefone público e ligou para o serviço de emergência. Um senhor de cabelos grisalhos que fora prestar socorro ao motorista, daquele carro arruinado, gritou: chamem uma ambulância o motorista está bêbado e ferido mais está vivo. Uma outra voz indignada berrava a plenos pulmões: Isto aqui é um caso de polícia... É isso mesmo de polícia. Alguém sugeriu que procurassem dentro da bolsa da acidentada, algum numero de telefone para tentar contactar a família daquela jovem e informar sobre o acontecido.Encontraram a sacola caída no meio fio e as coisas que estavam dentro dela espalhadas pela rua, mas nem tudo que havia na bolsa estava jogado no chão, o dinheiro tinha corrido silenciosamente para algum bolso solidário. Quando a ambulância chegou. Solange com um olhar perdido fitava aquele céu escuro. Parecia estar vendo, por entre as lágrimas frias que lhe desciam as faces lívidas, as estrelas brilhando intensamente por cima de toda a luminosidade artificial de Copacabana. E naquele momento final balbuciou para si mesma: _ Vai fazer um dia lindo amanhã... Talvez azul...Azul da cor do mar.


Fabiano Silmes

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

É carnaval e chove

É carnaval e chove.Observo a chuva com prazer incomensurável.
Devo ser em todo o Rio de Janeiro o único carioca que sente
feliz com esta presença não desejada pelos foliões e pelos amantes
da praia de Copacabana.Perdoa-me rapazes e moças bronzeadas,
que se amam sob o calor tempestivo do Rio.Perdoem-me trabalhadores
que saem de manhã cedinho para cumprir a dura missão de manter
acesas as engrenagens da cidade.Perdoem-me também os vendedores
ambulantes com as suas cervejas nem sempre geladas,mas sempre
indispensáveis no fim de tarde.Perdoem-me todos os pretos,brancos,
índios e mulatos que batucam no mesmo rítmo.Tenham pena deste que
sozinho olha a chuva cair e acha graça.Deste que em verdade tem a chuva
como companhia.Perdoa-me ó multidão de risos úmidos e fantasias
molhadas.Perdoa-me principalmente aquele senhor e aquela senhora que
apesar de tudo,fizeram a fantasia para seu filhinho brincar o carnaval.
Perdoem-me todos...os gregos,os troianos e até mesmo a esta chuva...
_Pois a chuva que quero é aquela que não quer molhar ninguém.


Fabiano Silmes

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

A vitória e a derrota




O imperador ao saber que no seu reino se encontrava um velho sábio que há anos vivia em completo retiro nas montanhas, ordenou aos soldados do palácio que o trouxessem a sua presença para ter com ele.O imperador era tido por todos do império como: um intelectual brilhante, um filósofo excepcional e um poeta habilidoso com as palavras.E muito se falava sobre alguns de seus costumes, dentre eles um que o marcara desde a juventude; o que consistia em fazer perguntas enigmáticas aos sábios, filósofos e poetas do reino, sendo que estes nunca conseguiam satisfazer por completo a profundidade de suas perguntas.Quando o velho sábio foi posto a presença do imperador, este lhe reparou as roupas simples e gastas pelo tempo, as barbas longas e hirtas, e os gestos calmos que resumiam a simplicidade daqueles que vivem uma vida santa.O imperador demonstrando desdém e até mesmo desapontamento perguntou ao sábio:
_Em uma batalha um perde e o outro ganha é a ordem natural de todas as batalhas, porém quem é o vencedor?Quem vence ou quem perde?E se houve derrota poderá o derrotado proclamar-se vencedor?
_Meu senhor depende de como foi ganha a luta: se num combate entre dois oponentes um é aparentemente mais forte e o outro é aparentemente mais fraco, o primeiro sair derrotado prova que ele não era tão forte assim, mas, caso tenha sido o primeiro a vencer o segundo então não houve uma batalha, mas a consolidação de uma covardia...A vitória é relativa quando o combate é encerrado, muitas ocorrem quando não há luta nenhuma. A estes chamamos de combate perfeito.Combater sem pensar no resultado para vencer sem lutar, assim a vitória e a derrota se complementam como a luz e as trevas se delineiam e os dias e as noites se sucedem.Às vezes proclamar quem é o vencedor ou quem é o perdedor em um combate é tão insensato como entre o som e o silêncio apontar qual deles é o mais importante...Isto é tudo que sei senhor...
O Imperador olhou-o e disse:
_Suas palavras fluem com a transparência e a profundidade de um rio...Peço que mate minha sede, ensinando teus preceitos a este seu humilde discípulo que o esperava há tantos anos.E no derradeiro momento em que a noite já se encontrava inclinada silenciosamente sobre todo o reino, a luz do Satori havia sido acessa definitivamente no palácio...

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Bloco de notas

Ao poeta que se revelou antes da morte

A realidade é a navalha que corta minha alma
A dor me criou e agora me transforma
O refúgio não vem de nenhuma direção
Assim me afogo nas lágrimas do adeus
Sussurrando como a leve brisa que sopra na madrugada

Da máquina faço minha testemunha confidencial
Através dos bits ressoarão minhas palavras não ditas
A solidão, minha última companheira
Faz-me ouvir o sermão do vento
Enquanto a noite encobre meu amargo destino

Os princípios se transformam num fim insípido
Eu num rei deposto pelo silêncio do medo
Acorrentado ao trono do desespero e
Envolvido na mortalha das razões
Consumo o único remédio que me alivia

Seu retrato sorrindo para mim.

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sábado, fevereiro 09, 2008

O sonho e a realidade

In memory a Aline Silva

Sonhar é como abrir as janelas
e ouvir os pássaros todos cantando
melodias nas árvores do quintal.
A realidade,porém é cinza e triste,
como abrir as portas da velha casa
e ver que as árvores não estão mas lá.

Fabiano Silmes

quinta-feira, janeiro 31, 2008

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Sobre sonhos


Não gosto de bons sonhos
Prefiro os piores pesadelos
Fazem-me sentir mais feliz
De viver a realidade

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Foto: Banksy


Banksy é um dos mais conhecidos artistas de rua do mundo. Nascido em Bristol, Reino Unido em 1975 seus stencils são facilmente encontrados nas ruas de Londres.
Não se sabe a identidade de Banksy. Ele não costuma dar entrevistas e fez da contravenção uma constante em seu trabalho, sempre provocativo.
Recentemente, ele trocou 500 CDs da cantora Paris Hilton por cópias adulteradas em lojas de Londres, e colocou no parque de diversões Disney uma estátua-réplica de um prisioneiro de Guantánamo.
Sua obra é carregada de conteúdo social expondo claramente uma total aversão aos conceitos de autoridade e poder.
Em telas e murais faz suas críticas, normalmente sociais, mas também comportamentais e políticas, de forma agressiva e sarcástica, provocando em seus observadores, quase sempre, uma sensação de concordância e de identidade.
Apesar de não fazer caricaturas ou obras humorísticas, não raro, a primeira reação de um observador frente a uma de suas obras será o riso. Espontâneo, involuntário e sincero, assim como suas obras.


Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.






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terça-feira, janeiro 08, 2008

A relatividade da vida








Hanzo perguntou ao mestre Tsu-Yogashi:
_Mestre por que os homens sofrem?
_Porque amam a Vida.
_E por que mestre os homens
matam uns aos outros consumidos
pelo ódio e pelas paixões vazias?
_Porque não amam a vida.

Fabiano Silmes