segunda-feira, julho 23, 2007

Orquídea

Para Lu Rosário

tens medo e abre-te toda
em segredo como uma rosa
suavemente abre suas pétalas
para seram tocadas pelo beija-flor

Minhas mãos procuram-te
na exatidão do delírio
e encontra em fogo
o teu vulcão submerso
entre folhagens quase inexistentes

a tua fonte escondida resplandece

e corre tranquilo em teu rio o meu barco
a penetrar pelas ardentes águas do
teu desejo satisfeito em gozo
lágrimas e risos.

Fabiano Silmes

sábado, julho 14, 2007

Quintal Celeste



Ocupante de toda visão: espaço
Astros povoam tua imensidão
Invadem o pensar
E mantêm o equilíbrio

Revelas a face de minhas idéias inquietas,
A ribombar mente afora
Libertas das correntes corpóreas
Como pluma leve ao vento

Não sei mais onde meus passos me guiam
Mirar-te, firmamento, trás a certeza da incerteza
Porém descalço sinto as estrelas,
O embrião de um novo dia, e as possibilidades de um velho ser

Mas em ti não creio, nem posso crer.
Nada provas a ninguém
És rei, não réu.

Sonho apenas voar-te alto
Num sobre-salto da imaginação
Enquanto o mundo dissolve,
Serei tua lágrima.

290total507

quarta-feira, julho 04, 2007

Insônia




Me sinto extremamente entediado.Certamente já deve ser mais de onze horas da noite, e eu já percorri quase todas as ruas de Copacabana.Estou quase vinte quatro horas acordado devido a está maldita insônia_ que nestas últimas semanas vem me martirizando_ até as quatro e meia da madrugada quando às vezes adormeço para acordar às sete e quinze da manhã; exausto, com os ossos moídos e uma frustração que me deixa de mal humor durante todo o dia.
Minhas pernas dão sinais de cansaço enquanto sigo. imagens repentinas me assaltam. Penso em Clarisse e(...). acho que foi melhor para nós dois... ignoro a dor em minha perna esquerda e aperto ainda mais os meus passos. Meu pensamento é um turbilhão de imagens confusas; Tudo parece estar girando dentro da minha cabeça .Lembro-me do encontro casual que tivera com um dos meus alunos alguns quarteirões atrás, e como ele mal disfarçava sua perplexidade por ver-me com esta doméstica aparência. Certamente ele também já sabia de tudo... Depois de algumas cordialidades formais. Disse-me num tom de voz que acalentava um receio de irônia: - Quem vive está sujeito a se embreagar de bons e maus momentos, é inevtável,mas o importante é que as ressacas sejam todas curadas em um bar qualquer sob o olhar atento de algum garçon impaciente pra fechar o estabelecimento depois de um cansativo dia de trabalho. E recitou-me ainda um poema do Bandeira em que os versos: - A vida é traição/ e saudava a matéria que passava/ liberta para sempre da alma extinta. Ficaram martelando em minha cabeça. Quando nos despedimos, o vendo se afastar lentamente, pude notar por seus passos que ele estava ébrio. Numa decisão momentânea. Eu o gritei e perguntei onde podia curar a minha... Ele virou-se numa mistura de espanto e riso e falou: -Na Avenida Atlantica tem uns lugares muito bons pra isso . E se foi noite adentro molhado pelos faróis dos carros que passavam ignorando os sinais. Estou me arrependendo por seguir a idéia do meu aluno, em verdade estou me sentindo estúpido por seguir uma babaquice tão idiota. Chego enfim a Avenida Atlantica. E olho displicentemente alguns possíveis lugares para afogar minhas mágoas e esquecer de(...) Até que encontro um lugar que se encaixa perfeitamente à esta idéia. Reluto em entrar, mas como já andei tanto e estou aqui. Resolvo levar a cabo meu objetivo. Ao entrar sou envolvido por um Samba, acho que é do Vinícius ou será do(...) A música dá ao ambiente certa dignidade nostálgica. Escolho uma mesa um pouco afastada da porta de entrada. Espero o garçom me atender, enquanto observo as mesas ao meu redor, noto que o bar está quase vazio, exceto por um pederasta gordo com um rapaz,três casais sentados em uma mesa póxima a porta e um velho de terno azul escuro e gravata listrada sentado em uma mesa ao meu lado. O pederasta gordo sorri maliciosamente para o rapaz, chama o garçom, paga sua conta e saem eufóricos. O velho bebe algo que presumo ser algum tipo licor. Enquanto observo os casais o garçom se aproxima com um olhar triste de Sísifo. Peço que ele me traga uma dose dupla de uísque com gelo. Ele sai e volta um pouco depois trazendo o meu pedido. Tomo um gole da bebida com certo desespero de sede. Quando volto meu olhar para os casais eles já não estão onde estavam; devem ter saído enquanto eu me distraí com o garçom. Agora só há o velho e eu no estabelecimento.Noto a ansiedade dos funcionários e lembro das palavras do meu aluno, deixo fugir em meu rosto um pequeno sorriso, mas logo o cubro com meu habitual estado de introspectividade. Sinto uma mão tocar em meu ombro direito e viro-me num sobressalto:_ é o velho. Ele se desculpa por ter me assustado e me pergunta se por acaso ele pode sentar-se comigo. Estranho seu pedido; mas ele explica que está esperando há horas o filho dele chegar e como ele não chegou até agora, acha que provavelmente não virá mais.Falo para ele puxar uma cadeira, que prontamente o faz sentando-se em seguida, falamos coisas relativas ao tempo e o calor que tem feito no Rio nestes ultimos dias.Então ele começa a me dizer que seu filho está atravessando um situação difícil e que por isso combinaram o encontro neste bar. Ouço sem muito interece sobre os problemas do filho dele...mas algo que ele está me dizendo me chama atenção..acho curioso o fato dele ter mencionado que o filho dele também sofre de insônia. o velho se desculpa por não ter se apresentado. Meu nome é Hernandez Santiago, ele me diz com uma voz rouca e cansada. Digo maquinalmente o meu nome. Estou pensando em Clarisse e naquela maldita discussão por causa da(...). Santiago me pergunta se estou com algum problema. Desconverso, mas ele insiste.Por alguns segundos há um muro de silêncio entre nós dois. Então eu abro o jogo e falo sobre a Clarisse e aquela(...) Santiago sorve as últimas gotas de sua bebida, eu o observo com certa expectativa. Santiago olha numa direção ignorada e começa a me falar se por acaso eu tenho medo de continuar sem a(...) Respondo que não, e ele sorri e me pergunta então porque estou fugindo de tudo. Calo-me sem respostas e Santiago numa voz paterna me diz que se não houvesse os erros jamais conheceríamos os acertos, que eu errei no que fiz, mas que isso não significa que eu deva viver constantemente com medo de fracassar outra vez. Eu falo da dor que causei a Calrisse e a(...) mas ele me fala que as pessoas são diferentes em seus sofrimentos mas são iguais em suas dores, que se eu causei dor a alguém eu também estou sentindo. Explico a ele que não é exatamente dor que eu sinto mas um remorso de culpa. Ele pigarreia, e dizendo novamente em voz paterna:_ Filho, por mais que está vida seja dura sempre acreditaremos num amanhã suave, pois a vida é feita de esperança,todos nós estamos sujeitos aos erros porque as vezes não temos muito tempo para pensar nas escolhas que fazemos...eu o interrompo e digo a ele que se pudesse voltar atrás mudaria tudo que aconteceu...Santiago retruca ao meu comentário dizendo:_ aquele que exige muito de si acaba com o passar do tempo exigindo dos outros aquilo que não foi capaz de realizar em si mesmo. Fico pensando no que Santiago me disse enquanto ele faz outro pedido ao garçom. Santiago vira-se e conclui:_ todo mundo cai neste erro mas o importante é que após o tombo,limpe a poeira e siga em frente,por que às vezes as maiores realidades são aquelas que estão perdidas em nossos sonhos...e com certeza você jamais os alcançaram se permanecer caido à espera da piedade de uma mão qualquer para levanta-lo.Na verdade neste momento por mais que alguém queira te ajudar não poderá faze-lo;pois a culpa que carregas está dentro de ti...tento pensar em algo pra falar mas as palavras me faltam.Meus olhos mergulham dentro do meu copo já vazio, como se procurasse no distinto gesto, extrair todas as respostas que carrego comigo.O garçom se aproxima e serve a Santiago outro copo do que fico sabendo ser Absinto com gelo e me pergunta se eu quero beber mais uma dose. penso um pouco e falo que não, peço a conta, converso um pouco mais com o Santiago. O garçom traz minha conta eu o pago, me despeço do velho e saio. A noite está fria e eu estou lúcido e calmo, ao meu lado passam alguns turistas abraçados com prostitutas, uma sirene ao longe une-se ao movimento noturno das ruas de Copacabana.Acendo um cigarro e dou uma tragada, sinto a fumaça aos poucos invadindo meus pulmões e a solto devagar até ve-la disolver no vento. estou com sono, não sei que horas são. Digo pra mim mesmo bem baixinho que as ressacas da vida se curam no bar. Estou curado? Não importa, estou com sono e sei que o dia não tarda em nascer. Há uma revolução de coisas em minha vida e em meu pensamento. E eu, só quero dormir.

Fabiano Silmes